Estaria disposto a apostar na descontextualização do leitor relativamente ao assunto indiciado pelo título.
Estarão certamente neste momento os caros amigos a imaginar uma engrenagem mecânica. Como estão enganados... Habituados aos carretos de pesca de marcas conceituadas ou às desmultiplicações impostas por Lance Armstrong à sua bicicleta na Volta à França, dificilmente me acompanhariam nesta dissertação.
Pois bem, vou regressar ao antes do 25 de Abril, bem longe da Revolução dos Cravos, lá para meados de 1970. Nesse tempo andava eu de calções com fundilhos mas era um pobre feliz.
Ainda o stress não estava inventado. O tempo arrastava-se lentamente, o que permitia assimilar sabores, aromas e o tele-transporte para o imaginário a que a leitura dos livros da biblioteca itinerante Gulbenkian nos convidava.
Eram tempos em que nada acontecia, e qualquer alteração à rotina era considerado dia de festa. Por isso, sempre que podia lá ia eu todo lampeiro ao carreto.
A minha avó era moleira e proprietária de dois casais de pedras que giraravam incessantemente sem parar enquanto corria água suficiente na ribeira. O grão depositado em cima na moega, como que por magia desaparecia no meio do "rame-rame" cadenciado do movimento da mó. À frente, um pano a tapar uma caixa de madeira não impedia, que a farinha que crescia aos repelões, em parte escapasse numa nuvem que ao diluir-se pintava tudo de branco realçado nas teias de aranha e na roupa do moleiro. A vassoura feita de painço juntava num canto o que se acumulava no chão, para depois juntamente com o farelo engordar o porco ou aumentar a produção da vaca leiteira.
Estávamos a chegar ao fim de tempos muito difíceis, em que a sobrevivência passava em parte pela farinha, essencial para o pão dos pobres - a broa de milho cozida em forno de lenha. Por vezes era enrolada na massa sardinhas ou chouriço. Outro comer de pobre (hoje manjar) eram as papas. As sobras de sopa de lavrador eram "aumentadas" no dia seguinte com farinha de milho que cozia lentamente, sempre mexidas com colher de pau para não agarrar ao fundo, garantiam mais uma refeição a baixo custo para a família. Havia também quem fizesse papas laberças, em que as nabiças substituíam a sopa. No terceiro dia, caso ainda sobrasse alguma coisa, o que restava era aquecido na frigideira com um pingo de azeite. Papas regadas com azeite caseiro e acompanhadas de sardinha assada é um pitéu. No inverno era (e é) um espectáculo de sabores acompanhar as papas com a sardinha da matança (salgada em sal usado na arca da matança do porco).
A industria da moagem subsistia em parte da maquia. Os clientes da terra vinham ao moinho fazer a troca e pôr a conversa em dia. Ao lume, estava sempre a cafeteira do café, acrescentada a escassos intervalos para presentear as visitas. Os homens petiscavam mais para o tinto ou aguardente de bagaço consoante as horas do dia.
A freguesia angariada ao longo de muitos e sérios anos espalhava-se por muitos quilómetros em redor. Era para esses que se destinava o carreto, termo agora em desuso, mas que na gíria local do moleiro tinha um conceito abrangente do transporte da mercadoria e dos clientes inseridos no percurso. Existiam dois circuitos, um deles estava à responsabilidade da minha avó e abrangia uma pequena área do Baixo Mondego. Mas o carreto da minha preferência, entrava pelo Sicó e estava a cargo do marido da minha avó (dum segundo casamento).
Atravessar a Mata da Bufarda deitado em cima dos taleigos, na carroça acompanhado dos moscardos que não largavam a mula, era um espectáculo. O tempo dava para tudo. O mais comum era apreciar a natureza em cada canto e recanto, as pedras a quem ia atribuindo significados impostos pelas formas peculiares, o contorno dos montes efeminados e o grito das aves que de tempos a tempos me acordavam. Longas conversas se passavam contando-me coisas da política, da guerra, da fome e da tropa passada em São Miguel à espera dos alemães.
O ponto alto acontecia já Sicó adentro - nunca falhava a hora da bucha. Só conheci uma ementa: chouriço, broa e azeitonas. Enquanto se trincava, de tempos a tempos, a mula peidava-se e lá soltávamos uma gargalhada.
Coisas impensáveis num mundo de hoje: a ASAE fechava de imediato o restaurante ambulante por motivos de salubridade, a Protecção de Menores retirava o menor à tutela dos pais por exploração infantil e uma qualquer liga de Defesa dos Animais armava um escabeche danado por maus tratos à mula.